Tinha acabado a guerra, e Deus, lá nas alturas,Cercado de astros de oiro e pulcros querubins Ouviu sons marciais, fanfarras e clarins,E um ardente vozear de humanas criaturas.-“Que rumor – perguntou ‑ perturba assim o ar?"-“Senhor ‑ lhe diz alguém da corte celestial -Os bravos vencedores da Guerra Mundial,Sob o Arco do Triunfo estão a desfilar."Na célica mansão um sussurro se expande,E a densa legião de almas plenas de graça Acorre curiosa e se debruça e esvoaça,P'ra melhor distinguir a marcha heróica, grande!Então o bom S. Pedro, o santo venerando,Que por mando divino é dos céus o porteiro,Gritou: "Chamai Flambeau, o esperto granadeiro,Para explicar o que se for passando."Flambeau, que combateu e foi dos mais ousados,Acerca‑se atencioso, observa por momentos E informa: ‑ "Vão ali famosos regimentos,A glória militar, indómitos soldados!..."Cavaleiros, então, avançam com ardor,E ele anunciou: ‑ "Desfilam os dragões!..."Estremecem no céu os áureos portões,Que a voz do povo era um estrídulo clamor.-“Mas isto nada é...", disse Flambeau atento.‑“Olhai a Artilharia!..." Em enorme alarido,Reboam saudações qual ciclone enfurecido,Ascendendo em rajada até ao firmamento.E Flambeau continua: ‑"Isto ainda não é nada!Vereis melhor Senhor... Eis os aviadores!..."Revougam pelo espaço os potentes motores,A ponto tal que a voz do povo é sufocada.Flambeau proclama com enlevo! ‑"Os Marinheiros..."Desta vez o entusiasmo os mundos excedeu E cativado, o sol, palmas de oiro abateu Sobre os rijos heróis, que foram dos primeiros.‑" Agora, Senhor meu - disse Flambeau ovante -Vereis quando passar a nobre Infantaria...Tenho medo que o sol estoire e finde o dia E a noite eterna envolva a Terra num instante.Serão aclamações estrondosas torrenciais,Vibrarão no azul qual doida a trovoada,Ver‑se‑á a multidão frenética, entusiasmada,Delírio igual jamais se viu, jamais."Surgiram a seguir os homens das trincheiras,Alpinos, caçadores e toda a infantaria.Nas suas expressões claramente se lia O martírio sofrido e angústias e canseiras.Quando o canhão, rugindo, a morte semeava,Impávidos, no posto, assim permaneciam...Era uma corte altiva, os tantos que ali iam,Um grande, imenso, mar de heróis que ali passava.Ás quentes saudações que a multidão soltou Silêncio se seguiu, silêncio e nada mais.O espanto avassalou as regiões siderais.E Flambeau, indignado, agreste se expressou:-“Assim os recebeis, ó crua, ingrata gente?!Por vós riram da morte e a fome desdenharam,Cansados de sofrer jamais o confessaram,São de aço os quais ali vão, tropa digna, valente!Deveis‑lhe orgulho, sim, a graça de viver,E, em vez de os abraçar, calai‑vos? Mal andais.Franceses, ouvi bem: Sois rudes, sois brutais,Tamanha ingratidão não tem razão de ser."Mas mal termina a frase, olhando a Terra, ficaPossuído de orgulho, o coração em festa...Os Infantes, semi‑deuses, heróis em gesta,Que a luz do sol poente envolve e magnifica,Marcham erectos, viris, o olhar altivo e ousado...Fremente, perturbada, a imensa multidão,Por um alto mandato ou estranha inspiração,Havia ajoelhado.
LUCIAN BOYER Adaptação livre do Cap. J.M. Galhardo
o meu é andremanuel93@hotmail.com
abraço